INFÂNCIA
No vento,
Pedrinho perdeu
sua sombra.
- Cadê tua sombra, menino?
Gritou a mãe.
- Só não perde a cabeça porque está presa no pescoço.
Disse a vó.
Pedrinho ria a danar.
Depois foi estudar
enquanto a sombra brincava
de ser noite.
Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro PRALARVAS)
cecilia meireles
PSICANÁLISE FREUDIANA
Agarro a gruta
pela goela
com força bruta
olho em seus olhos
meus:
morte.
Dentes trincados
pelos eriçados
um gato que foge
pro escuro
por mais que se aperte.
(Seu tempo acabou)
Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro ACRE-DITO)
SEMELHANÇA NA DIFERENÇA
Filosofia e Poesia
são dois braços
de um mesmo dorso
esticados no esforço
de tocar
além do tempo.
Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro NO FIM, COMEÇO)DO CRIAR CAMINHOS AO CAMINHAR
Atrás
das grades
da rotina
deixei a sombra
de um sonho
que não era meu...
Hoje, a vida plena
sorri em cada canto
de cada cômodo cômodo
que por mais que seja cômodo inclusive
deixo
quando dá na telha.
Criar
e curtir criadores...
Amar
sem contar
nem conter
amores:
movimentos de mãos
e de terra
e de tudo
maravilhosamente
i n c o n t r o l á v e i s.
Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro NO FIM, COMEÇO)
A arte de ser feliz
Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Autor: Cecília Meireles
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